Lamento de cativeiro

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

A Paixão de Cristo continua pelos séculos afora no corpo dos crucificados. Jesus agonizará até o fim do mundo, enquanto houver um único de seus irmãos e irmãs que esteja ainda pendendo de alguma cruz. Nessa convicção, a Igreja Católica, na liturgia da Sexta-Feira Santa, coloca na boca do Cristo estas palavras pungentes: ''Que te fiz, meu povo eleito? Dize em que te contristei! Que mais podia ter feito, em que foi que te faltei? Eu te fiz sair do Egito, com maná te alimentei. Preparei-te bela terra; tu, a cruz para o teu rei''.


Celebrando a abolição da escravatura a 13 de maio, nos damos conta de que ela não foi completada ainda. Ouvem-se ainda os ecos dos lamentos de cativeiro e de libertação.

''Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me! Eu te inspirei a música carregada de banzo e o ritmo contagiante. Eu te ensinei como usar o bumbo, a cuíca e o atabaque. Fui eu que te dei o rock e a ginga do samba. E tu tomaste do que era meu, fizeste nome e renome, acumulaste dinheiro com tuas composições e nada me devolveste.

Eu desci os morros, te mostrei um mundo de sonhos, de uma fraternidade sem barreiras. Eu criei mil fantasias multicores e te preparei a maior festa do mundo: dancei o Carnaval para ti. E tu te alegraste e me aplaudiste de pé. Mas logo, logo, me esqueceste, reenviando-me ao morro, à favela.

Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!

Eu te dei em herança o prato do dia-a-dia, o feijão e o arroz. Dos restos que recebia, fiz a feijoada, o vatapá, o efó e o acarajé: a cozinha típica do Brasil. E tu me deixas passar fome. E permites que minhas crianças morram famintas ou que seus cérebros sejam irremediavelmente afetados, infantilizando-as para sempre.

Eu fui arrancado violentamente de minha pátria africana. Conheci o navio fantasma dos negreiros. Fui feito coisa, peça, escravo. Fui a mãe preta para teus fihos.

Cultivei os campos, plantei o fumo e a cana. Fiz todos os trabalhos. E tu me chamas de preguiçoso e me prendes por vadiagem. Por causa da cor da minha pele me discriminas e me tratas ainda como escravo.

Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!

Eu soube resistir, consegui fugir e fundar quilombos: sociedades fraternais, de gente pobre mas livre. Eu transmiti, apesar do açoite em minhas costas, a cordialidade e a doçura à alma brasileira. E tu me caçaste como bicho, arrasaste meus quilombos e ainda hoje impedes que a abolição da miséria que escraviza seja para sempre verdade cotidiana e efetiva.

Eu te mostrei o que significa ser templo vivo de Deus. E, por isso, como sentir Deus no corpo cheio de axé e celebrá-lo no ritmo, na dança e nas comidas. E tu reprimiste minhas religiões chamando-as de ritos afro-brasileiros ou de simples folclore. Não raro, fizeste da macumba caso de polícia.

E quando se pensaram políticas que reparassem a perversidade histórica, permitindo-me o que sempre me negaste, estudar e me formar nas universidades, a maioria dos teus grita: é contra a Constituição, é uma injustiça social.

Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!''

Por: Leonardo Boff

Pensador renomado, Leonardo Boff foi um dos criadores da Teologia da Libertação. Doutor em Teologia e Filosofia pela Universidade de Munique (Alemanha) e em Política pela Universidade de Turim (Itália), é professor de Ética, Filosofia da Religião e Ecologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Ps.: Aproveitando o feriado da consciência negra...
Boff é sempre preciso na sua cosmovisão cristã do mundo. Entretanto, o assunto cotas nas universidades carece de uma análise mais profunda e crítica. É inegável o "sofrimento negro" no desenrolar da história, só não sei - ainda - se isso é motivo suficiente para que os ascendentes e herdeiros desse passado sangrento recebam privilégios em universidades, afinal ser negro não é nenhuma deficiência; nossa "cor" não "nos" (me sinto um herdeiro, também) faz menos capazes.

Livros lidos - antes que 2009 acabe

terça-feira, 17 de novembro de 2009


Depois de muito tempo sem atualizar minha lista de livros...tomei coragem. Esse ano foi muito especial. Muita coisa mudou na minha vida, menos a quantidade de livros lidos – continuo na média (de 5 a 10 por ano), mas quero ler mais até o fim desse ano.

Ainda não cumprimos com o prometido, isto é, de resenhar os livros que lemos; porém, como alguns dos que li são excepcionais, merecendo uma nova leitura, prometo que, finda as (re)leituras, resenharei por aqui.
A ordem na qual os livros estão dispostos abaixo, obedeceram a minha memória “aguçada”.

01 - Salvos da Perfeição
Autor: Elienai Cabral Júnior
Editora: Ultimato
Páginas: 166

02 - O livro mais mal-humorado da Bíblia
Autor: Ed René Kivitz
Editora: Mundo Cristão
Páginas: 222

03 - Cristianismo Criativo
Autor: Steve Turner
Editora: W4
Páginas: 176

04 – Perguntas que precisam de respostas
Autor: Philip Yancey
Editora: Textus
Páginas: 190

05 - Feridos em nome de Deus
Autora: Marília de Camargo César
Editora: Mundo Cristão
Páginas: 160

06 - A Igreja, o País e o Mundo
Autor: Robinson Cavalcanti
Editora: Ultimato
Páginas: 160

07 - O caso dos exploradores de cavernas
Autor: Lon L. Fuller
Editor: Sérgio Antonio Fabris
Páginas: 75

08 - Qual é a tua obra?
Autor: Mário Sérgio Cortella
Editora: Vozes
Páginas: 144

Bom, se não me falha a memória são estes; embora sinta que faltam alguns. Vou me empenhar pra ler e listar, até o fim do ano, mais uns cinco, no mínimo.

Vou levar a sério a proposta de que, pra escrever uma linha devo ler vinte.

Will

É preciso aprender a perder

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

É preciso aprender a perder, pra não perder a alma em meio às decepções e o coração ante a dor. Transforme realidades. Antecipe-se às circunstâncias; seja inteligente. Não seja pessimista, tampouco um otimista exacerbado, mas, suficientemente inteligente para entender que perder faz parte do jogo da vida.

É preciso aprender a perder, pra não viver iludido; boa e transformadora é a desilusão. Pense e repense. Julgue, reconsidere. Melhor acordar em meio a um pesadelo do que permanecer envolvido num sonho sem sentido e depois acreditar que este, pode tornar-se útil.

É preciso aprender a perder, pra não se perder de si mesmo. A vida é um grande labirinto, cheia de entradas e saídas, direitas e esquerdas. Redobre o cuidado, em meio à sanha de conquistar e alcançar corremos o risco de amar coisas e usar pessoas - às vezes a nós mesmos.

É preciso aprender a perder, antes que chegue a morte. Morrer é deixar de existir completamente do lado de cá do céu. Preocupe-se em viver, considerando que perder é parte do existir; uma aventura de caça ao tesouro. Só achamos o que perdemos. Recomeçar dói, mas é mais saboroso do que simplesmente começar.

É preciso aprender a perder, pra experimentar sentimentos, viver sensações, desfrutar emoções. Chore. Sorria. Viva.

É preciso aprender a perder, pois para viver o genuíno sentido da existência é necessário: negar a si mesmo e perder o homem mal que existe em cada um de nós; morrer para si e nascer para Cristo.

Por um perdedor,

Will

Enquanto isso, longe da reforma...

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Sábado (31/10/2009), completou-se 492 anos da reforma; e cá estamos diante de uma igreja protestante (digo no todo) bem distante dos sonhos reformados.

Muita coisa é estranha ao evangelho na igreja que se diz evangélica. Mas, prefiro me ater (a fim de obedecer ao propósito da categoria do blog) aos problemas da igreja pentecostal – na qual, como já escrevi, vivi por 8 anos.

Para os que não sabem ou ainda têm dúvida, pentecostal é uma “denominação” que as igrejas moldadas pelas doutrinas oriundas do movimento que começou na Rua Azuza, EUA, em 1900, aderiram. Trata-se de um movimento que enfatiza a doutrina da atualidade dos dons do Espírito Santo no homem, principalmente o falar em línguas estranhas (glossolalia) – embora muitos pentecostais não entenderam nem procuram atender as recomendações do Apóstolo Paulo, quanto a este dom. Na real, toda igreja cristã é pentecostal, afinal ninguém confessa que Jesus Cristo é o senhor a não ser pelo Espírito Santo. Quanto aos dons, são muitas as igrejas “não pentecostais” que concebem a ideia “pentecostal”, de serem os dons elementos atuais na igreja de Cristo dos tempos modernos.

Devido à desgraça chamada de movimento neopentecostal, aos poucos vão desaparecendo as origens e os princípios da igreja pentecostal – até a Assembleia de Deus, a maior denominação e uma das primeiras igrejas pentecostais do Brasil, já se “corrompeu”. O fato é que chegamos num tempo em que, ou o movimento pentecostal se declara neopentecostal, aceitando seu fracasso, ou resisti a esta praga e se torna um movimento firme e reflexivo, pensante e consistente; o que dificilmente acontecerá.

A teologia da prosperidade, maior ênfase do movimento neopentecostal, vai corroendo o movimento pentecostal de maneira espantosa. Diga a um pentecostal que na oração ele não precisa fazer uma lista de pedidos a Deus, entre eles “porta de emprego”, “carro novo” e etc., e ele te acusará de incrédulo. Lembro-me que disse a um pastor que na oração não precisamos ficar pedindo coisas a Deus, visto que todas as nossas reais necessidades foram satisfeitas na cruz do calvário com o golpe de vitória da ressurreição de Cristo e ele logo afirmou que eu estava dizendo que não devemos orar, afinal o que seria da oração sem os pedidos de praxe?

As campanhas, métodos alucinógenos e meios de grande arrecadação financeira neopentecostal, já fazem parte das liturgias pentecostais. São campanhas da vitória, da libertação, da porta aberta e muitos, mas muitos outros nomes e fins desejados, enquanto a consciência da graça e da justificação por Jesus – se é que alguns a têm – definha ante as convicções fracas e nas mentes frágeis dos pentecostais. Como os santos católicos, para cada problema os evangélicos têm uma campanha específica, menos a cruz.

As músicas cantadas entre os pentecostais, são, em grande parte, lixo neopentecostalizado. Quando não tratam de um endeusamento do homem, incentivando os crentes a “atraírem”, “trazerem” e a “chamarem a atenção” de Deus, sendo que as Escrituras dizem que cabe a nós buscarmos a Deus enquanto se pode achar de uma maneira genuinamente evangélica, isto é, nas palavras de Jesus, no próximo, ensinam que não devemos aceitar o sofrimento; pobre Jesus crucificado, fosse evangélico teria aceitado a proposta de Pedro de resistir ao sofrimento, negando o caminho e a cruz do calvário – com certeza teria clamado, ou até feito, um milagre.

As pregações caminham na mesma toada das músicas; na verdade são a grande miscelânea de valores pentecostais e neopentecostais. Os pregadores pentecostais viciaram-se na prosperidade neopentecostal, alguns a travestem de “benção de Deus”, outros negam a todo custo, valendo-se de um argumento fajuto: precisamos de dinheiro para viver – como se a prosperidade bíblica tivesse alguma relação com a teologia da prosperidade neopentecostal -, e quem não precisa. Pregador pentecostal é vidrado em milagre; esquecem que milagre, por definição, não pode acontecer a todo instante; esqueceram, se é que alguma vez souberam, do maior milagre que o mundo já viu: Jesus Cristo.

Toda organização humana acontece num sistema, não duvido nem descreio. Entretanto, é um direito de qualquer humano poder escolher em qual sistema quer viver. Existem - bem poucas, mas existem -, igrejas pentecostais reflexivas, que resistem ao sistema neopentecostal de ser; essas têm a minha confiança e o meu apoio. Não por serem certas, ou detentoras da verdade, mas por reconhecerem o sacrifício de Cristo e o lixo que é o movimento neopentecostal.

Por uma igreja na verdade de verdade,

Em Cristo, a verdade absoluta,

Will

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